Eu sempre leio algo sobre o assunto e as opiniões se dividem. Tem Mestre que jura que consegue fazer seus jogadores - SIM, os jogadores marmanjos, não os personagens deles - borrarem nas calças e saírem olhando para os lados quando acaba o jogo; e tem também aqueles que apostam que o horror de verdade nunca pode ser atingido em uma mesa de jogo, e que o que vale é os jogadores INTERPRETAREM nos personagens essa idéia de horror.
Primeiramente, vamos pensar sobre o que é horror nesse contexto. Fazendo uma rápida pesquisa meia-boca, encontrei algumas definições:
Horror: estremecimento ou agitação; repulsão, repugnância, causada por coisa contrária à natureza, à moral ou aos sentimentos humanitários. Aversão.
Certo. Horror seria uma sensação de desconforto intenso, algo que estranhamos. Como um jogo, um simples entretenimento, pode causar esse desconforto? É impossível compararmos o horror de algo real com o horror de algo imaginário, da ficção, mas o sentimos, em um certo grau. Poderíamos pegar filmes como exemplo. No caso A Centopéia Humana 2 ou Um Filme Sérvio, dois filmes que puxei de cabeça e que causaram certa polêmica no pessoal. São produtos gerados para diversão, mas com o conteúdo tão forte e explícito que causou repulsa nos que assistiram (sim, já conferi...mas voltando ao RPG). Diferente do famoso Atividade Paranormal, ou Sexta-Feira 13, em que pessoas se assustam, ficam com medo, mas não chegam a ficar horrorizadas, desconfortáveis com aquilo ao ponto de proibirem a exibição do filme.
O mesmo caso se aplica aos videogames, como Silent Hill, Alan Wake, Condemened...em alguns pontos desses jogos é possível sentir um certo estranhamento.
E por que não em jogos de RPG? Antigamente as pessoas sentiam pavor ouvindo outras pessoas contando histórias de horror ao redor da fogueira. Um dos princípios do RPG é contar histórias e envolver os jogadores, o que deveria causar um efeito mais intenso.
Sendo assim, RPGs que se propoem a ser "Jogos de Horror" são pretenciosos?
Antes de responder, vou contar minhas tentativas de mestrar jogos de horror.
TERROR E HORROR
Por muitos anos, eu, como fã do gênero, sempre quis causar o horror nos jogadores. Já tentei de tudo: música, pouca iluminação, entonação, fotos - tudo para tentar emular o que os filmes fazem com a gente no cinema, aquele clima imersivo. "Talvez seja esse o segredo", eu pensava. O esforço não era em vão, pois todas as vezes a galera dizia que foi o "melhor jogo que já tiveram, envolvente e tudo mais...", mas eu não via aquele medo nos olhos deles. O máximo foi uma tensão, nervosismo conforme eu narrava uma cena de horror...mas nunca o horror de verdade. Descobri, pesquisando sobre definições, narrativa e tudo mais, de que aquilo que eu consegui era terror, e não horror. O terror sim é o nervosismo, o perigo, tensão, medo de fazer algo ruim. Isso numa mesa de jogo é muito comum de se atingir. Comecei a desencanar da idéia e aceitar que horror mesmo nunca seria possível no RPG.
Neste caso, o que experimentamos na mesa de jogo seria "Jogos de Terror"? Isso, por si só, já englobaria até mesmo D&D, GURPS e Marvel Heroic Roleplaying. O terror poderia estar presente em qualquer cena marcante, num combate tenso, armadilhas e etc.
Mas curioso, continuei lendo foruns de dicas de outros mestres, artigos, livros sobre horror na literatura e na narrativa...enfim, muita coisa. Até que um belo dia, me caiu a ficha. Sim, existe horror no RPG. O segredo é: até onde eu seria capaz de ir pra causar horror no meu jogo. Conclui que para isso acontecer eu teria que pegar muito pesado, explorar temas e situações muito delicadas, que iriam mexer diretamente com a cabeça do jogador e incomodá-lo com o que eu estava descrevendo.
Experimentei a coisa. Funcionou perfeitamente. E não foi legal.
Fiquei tão focado em fazer do meu jogo um tipo de Um Filme Sérvio, que acabei virando alvo da mesma indignação gerada pelo filme. Enfim, quase estraguei uma amizade de anos por um objetivo bobo desses. Mas afinal, minha teoria funcionou.
ENFIM, O HORROR EXISTE
O que eu concluo? Jogos que trazem a premissa de horror - como WoD, Call of Cthulhu, Kult, In Nomine, Fear Itself - existem sim e são o que se propõem a ser, seja um cenário de horror cósmico ou horror pessoal (pra mim, tudo é um horror só, sem rótulos...mas enfim). O lance é que eles tem o POTENCIAL para ser um jogo de horror de verdade, mas no contexto do que estou explicando aqui, eles são, inicialmente, jogos de terror.
Todos os módulos básicos desses livros citados possuem um capítulo dedicado ao mestre, com dicas de como narrar o cenário de horror; ferramentas para explorar isso. Mas eu acredito que o gênero horror em RPG seja o mais difícil e complicado de ser alcançado, porque descobri que é preciso ter noção, maturidade e uma série de coisas que outros gêneros, como ficção científica, supers e aventura, não precisam.
Aguarde a segunda parte desse post, onde mostro dicas que foram úteis para mim, que acrescentam clima e como trabalhar com os jogadores para que isso seja possível; maturidade, técnicas...

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