.....
Eram duas da madrugada.
Jessica estava a duas horas de poder ir para casa. Seus olhos fitavam o antigo relógio pendurado na parede do bar, ao mesmo tempo que servia os coquetéis no balcão de madeira velha. O bar ainda estava funcionando: homens embriagados e calados sentados no balcão; Adelaine servindo as mesas com um shortinho minúsculo (como sempre, o que garantia gorjetas generosas à vadia), o cheiro do ovo e fritura vindo da chapa; e de repente, algo diferente, anormal, para aquele ambiente costumeiro.
Um homem alto, bonito, de longos cabelos negros caindo nos ombros, vestindo um terno fino branco, iluminado como a lua cheia. Era algo saído de um filme do 007 ou algo do tipo. O sujeito caminha e senta em uma das mesas. Adelaine se aproxima, não antes de trocar olhares com Jessica e ajeitar o decote. A garçonete para diante da superfície espelhada de um dos pilares do bar, solta os cabelos loiros e vai até a mesa.
- Oi! Algo para beber?
- Nem...estou só aguardando um amigo, nenêm. Melhor você guardar esse corpo para o velho Norris, Ade.
Adelaine arregala os olhos. Ninguém nessa maldita cidade sabia de seu passado e nem dos abusos que sofria do padrasto quando pequena. E só o velho porco a chamava de Ade.
- Como você... - ela mal teve tempo de terminar a frase.
O tremor veio, intenso, assustador. "Terremoto" pensou Jessica, enquanto gritava com as mãos na cabeça e se encolhia debaixo do balcão. Garrafas pesadas se quebraram no chão, caindo das prateleiras atrás de Jessica. Um homem se agarra no balcão, paralisado, ponderando se havia bebido demais da conta ou se o mundo estava ruindo.
Adelaine não se lembrava de estar caída no chão frio e imundo do bar, sua mente estava confusa e assustada demais para processar tudo. Sua visão era o nível do solo, vendo objetos "chovendo" e se estilhaçando num espetáculo de lascas e sons, pernas e sapatos escorregando em meio a cadeiras e mesas...e o sujeito de terno branco imóvel em sua mesa, como se não fizesse parte daquele ambiente mergulhado no caos.
A coisa durou segundos e parou, repentinamente. Calados pelo medo, todos no bar começaram a se recompor, se levantar, devagar temendo outro tremor desses. Silêncio. Jessica se levanta por trás do balcão e observa o salão do bar: mesas reviradas, o chão decorado com cacos de vidro e poças, pessoas espalhadas pelo ambiente começando a se levantar... e o homem de branco sentado. Mas algo está de pé, às suas costas, oculto nas sombras. O homem de branco parece estar calmo, apenas observando a mesa à sua frente.
- O pacto expirou, certo? - ele diz.
- CHEGOU A HORA, MR.BRIGHT. - a sombra diz, com voz de trovão, grave. Isso chama a atenção de todos do bar, atônitos demais para poderem compreender aquilo.
Adelaine ergue a cabeça para ver aquilo enquanto ainda recobra suas forças para se levantar do chão. Mas o esforço é inútil.
Havia outro homem ali, de pé, atrás da cadeira do homem de branco. Mas havia algo estranho nele, terrível. Ele era careca e alto, olhos como apenas dois pontos minúsculos e brilhantes e suas feições eram ocultadas por uma sombra. Usava uma espécie de sobretudo ou manto sujo, remendado - um forte contraste com o homem de terno impecável e claro sentado ali. Mas Adelaine podia ver, nos ombros do homem sentado, mãos pálidas e compridas, que terminavam em dedos roseados, sujos de sangue debaixo das unhas. Seu odor era forte, como o de um inseto queimado por uma lupa.
Jessica também estava com os olhos na conversa, mas também notou que nem todos ali perceberam a estranha presença naquela mesa, preocupados demais com o abalo que acabou de acontecer. Outro freguês do bar também estava observando os dois, ajeitando os óculos no rosto com um baixo "Mas que diabos...?".
- Ok, ok...eu troco por eles, seu filho da puta fedorento. Espero que sirva por mais dois anos, Agonistes...
- ASSIM SERÁ, RENASCIDO. SANGUE EM TROCA DE SANGUE. - diz a criatura.
Como um borrão, a coisa se move rapidamente pelo bar, em direção ao homem que estava de óculos próximo ao balcão, e um jorro de sangue escurecido tinge a parede próxima à Adelaine. seu corpo cai de joelhos, com apenas uma fonte vermelha e breve onde antes estava sua cabeça. Adelaine grita e se encolhe encostada na parede, ignorando os cacos que cravam em sua perna
quando se arrasta desesperadamente.
Duas outras pessoas disparam pela saída do bar, mas o borrão passa por eles em uma explosão de sangue e entranhas. Jessica não consegue evitar de notar os cutelos velozes nas mãos do monstro, um açougueiro infernal e implacável. As lâminas eram enormes e dentadas, como se tivessem sido forjadas por uma mente doentia. Três outras pessoas ali caem com a passagem veloz e sanguinária do assassino. Banhado em sangue, a criatura pára observa Jessica e exibe um leve sorriso, enquanto parte rumo a outras vítimas.
Jessica grita para Mr.Bright:
- Por Deus! Faça isso parar!
A única reação que ela vê é ele tirando um cigarro do bolso e acendendo, ignorando os pedidos da mulher. O matador pára, dessa vez diante de Adelaine, que ergue os olhos para o monstro. Ele apenas inclina a cabeça para o lado, observando-a com interesse, como um cachorro faz quando presta atenção em algo.
- Não, ela não, Agonistes...já é o suficiente, não acha? - diz Mr.Bright enquanto fuma, fitando a criatura, que o olha em resposta, desviando sua atenção da garota paralisada no chão.
- SIM... - diz Agonistes, voltando para a garota e puxando o ar com o nariz, profundamente, se deliciando com o cheiro da garçonete.
- NOS VEMOS DAQUI A DOIS INVERNOS, MR.BRIGHT. - e a coisa não mais está ali, como se tivesse evaporado na escuridão.
Adelaine apenas chora e soluça, de olhos vidrados no nada. Jessica permanece de pé, imóvel, atrás do bar, tremendo pelo corpo todo, tentando ignorar a chacina toda. O bar se tornou um matadouro sujo, bagunçado e fresco em menos de 1 minuto.
A única coisa limpa no lugar é o estranho de terno branco, que a criatura se referia como Mr.Bright.
- Por...quê...? P...or quê? - Jessica perguntava em voz baixa, olhando o homem fumando, como se nada daquilo fosse estranho para ele. O homem a olha, com um misto de piedade e empatia no olhar, e leva quase uma eternidade para se levantar da mesa e ir na direção dela, passando por vísceras, estilhaços e membros no chão; tudo muito natural, como se tivesse passando em meio à um quarto infantil, com peças de roupas espalhadas e brinquedos.
- Porque já fui rei um dia, Srta. Stein. Desculpe-me pelo seu bar. - ele joga 3 moedas encima do balcão ensanguentado, apaga o cigarro no sangue e parte, deixando o estabelecimento. Antes de passar pelas portas duplas da saída, ele se detém por um momento, como se quisesse dizer mais, mas logo desiste e segue em frente.
Passam-se minutos antes que Jessica possa se mover de novo, e ela o faz de forma lenta, assustada. Uma coisa por vez. Ela sai do balcão, dando a volta, e chega até Adelaine após longos 20 minutos. As duas se abraçam, buscando conforto, e depois de um longo período assim, elas encaram o cenário dantesco do bar, procurando outros sobreviventes.
- Vocês estão bem? - diz um homem. Elas olham um bombeiro, que acaba de entrar pelas portas duplas acompanhado de mais dois oficiais.
- Procurem por outros, eu levo elas para fora, Riggs. - um deles diz ao amparar as duas.
Mesmo confusas, elas percebem então que tudo está estranhamente encaixado naquele quadro de horror. Um homem, que teve seu corpo partido ao meio por cutelos demoníacos, está separado na verdade por uma viga enferrujada de metal que se soltou do teto e caiu sobre ele. Outro, que teria sido decaptado, está com a cabeça esmagada embaixo de um televisor que antes se encontrava na parede encima do balcão. E o mesmo pode se dizer dos outros corpos.
Tudo como obra de um acidente causado pelo tremor de terra. As duas saem pela rua, se apoiando uma à outra, observando veículos do corpo de bombeiros passando pelas ruas, viaturas e policiais ajudando feridos.
.....
Dentro do bar, o bombeiro pára diante do balcão e vê 3 moedas brilhantes, douradas, em meio à poeira. Na face de uma moeda, há uma coroa e uma escrita gravada abaixo:
Henrique III 1260 - O Brilho do Reino

Nenhum comentário:
Postar um comentário