quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Assombros: A Atormentadora


Uma criatura nascida do pecado e vingativa, a Atormentadora ronda as estradas, cemitérios e igrejas durante a noite, gritando seu ódio em busca de vítimas.
Nomes folclóricos: Mula-Sem-Cabeça, Burrinha-de-Padre, Anhangá
Regiões: por todo o Brasil, Argentina, Espanha e Portugal.

O Padre Otávio tranca as pesadas portas da igreja. Ele olha a estrada escura na entrada da pequena Vila Maria, ajeita o casaco e começa a caminhar rumo a sua casa. De súbito, sua espinha congela  e ele olha para trás, mas não há nada lá. "Senhor, esteja comigo" o padre Otávio diz baixinho e continua a caminhada. Então ele ouve galopes. Deve ser apenas um vaqueiro, diz o padre para si mesmo. Um grito agudo, de profunda dor e agonia, assusta o padre e ele se vira e fita o horror que salta sobre ele...

Investigação
Antropologia Forense: a vítima é encontrada em péssimo estado físico, com corpo todo esmagado. O corpo parece ter sido atropelado e pisoteado por um animal de grande porte. A maior parte dos ossos está partida ou rasgando através de órgãos e pele, como se o corpo tivesse sido golpeado diversas vezes, revirado, e golpeado novamente. Há marcas cauterizadas de ferradura, como se o ferro usado pelo animal estivesse em brasa - possivelmente, um equino grande, como um corcel.

Evidências: o local onde a vítima é encontrada não possui pegadas ou qualquer vestígio da passagem de um animal de grande porte, um cavalo ou algo assim. Contudo, portas de madeira ou cercados parecem ter sido atravessados e estilhaçados por um animal - ou animais - em pânico, em alta velocidade. Câmeras de vigilância e outros dispositivos emitem um mal-funcionamento e problemas de captação de imagem durante o momento do ataque.

Características
A Atormentadora é conhecida por suas duas formas: a de uma mulher e a de uma monstruosidade galopante. Quando na forma de mulher, possui olhos e cabelos negros, longos e sujos. Seu corpo não é coberto por nada, sempre nua e marcada por torturas. Pequenos cortes, hematomas, queimaduras feitas com ferro quente...a impressão é de que ela passou pelas mãos de um sádico inquisidor.  Mas o que mais chama a atenção é o adereço bizarro em sua boca: um cabresto de couro, usado em cavalos, com freio de ferro preso entre seus dentes, arreganhando sua boca de forma terrível e angustiante.
Nessa forma, ela é frágil, sempre com as mãos suplicantes, caminhar fraco. Nessa forma, ela apenas sussurra palavras desconexas, como se estivesse em profundo estado de choque, delirando. A intenção é fazer com que uma pobre alma desamarre o cabresto de seu rosto, algo que ela não pode fazer sozinha, impedida por sua sina.

É então que ela emite um grito enraivecido e se transforma em algo pior, digno de pesadelos.
Longas e musculosas patas de cavalo rasgam seu ventre, e seu corpo dá lugar a um enorme equino negro e coberto de sangue, como um rebento monstruoso. A criatura é desprovida de couro, deixando músculos enegrecidos, ossos protuberantes e tendões à mostra. O mais assustador é que o monstro é desprovido de crânio, tendo em seu lugar uma luz fantasmagórica e pálida emitida do pescoço - o que deixa um rastro enfumaçado, como uma leve névoa, por onde corre.
O monstro é incansável, como se impulsionado pelo ódio que nutre. Seu objetivo é um só: matar. A criatura parece seguir um único critério, que é o de rondar vilas onde há igrejas e sacerdotes presentes na comunidade - e que esses representantes "divinos" tenham cometido algum tipo de hipocrisia ou pecado carnal. É como se quisesse assombrar regiões onde as pessoas se apoiam na religião ou culto à princípios morais - como se quisesse testar a fé de suas vítimas.

Sua presença pode ser notada pelos gritos angustiantes que a criatura emite enquanto corre. É uma constante lamentação, gemidos de agonia capazes de gelar a alma dos mais fortes. É assustador constatar que esses gritos são humanos, como os de uma mulher em terrível sofrimento.
Apesar de bestial e cega de ódio, a Atormentadora possui inteligência, capaz de entender a linguagem humana e perceber alguma ameaça - nesse caso, algum símbolo sagrado ou terreno santificado. Fé verdadeira é a única coisa capaz de barrar a chegada da Aparição, incapaz de se aproximar de pessoas e objetos que possuam tal atributo.

O Cabresto de Ferro
Outro modo de impedir o monstro é amarrar o cabresto de ferro novamente na criatura. Isso porém só pode ser conseguido com um ritual de exorcismo realizado por alguém com fé verdadeira. O ritualista deve conseguir confinar o monstro ou amarrá-lo com correntes ou laços - de preferência que tenham sido abençoados - para então proferir as palavras de expulsão. A luz no crânio do monstro vai aos poucos se extinguindo, dando lugar à cabeça descarnada do animal. O ritualista então prende o cabresto. Com um grito estridente, o cavalo começa a se desfazer em cinzas e é banido de nosso mundo.
A Atormentadora só ressurgirá se houver um novo pecado carnal cometido por um sacerdote que esteja na mesma região onde ela foi banida pela última vez. Ela virá na forma de moça, com seu cabresto de ferro e pedindo ajuda - iniciando um novo ciclo.

Muitos acreditam que a Atormentadora não possua controle sobre seu ódio, quando ela sai para matar e percorrer as vilas durante a noite. Alguns padres rogam que a criatura é amaldiçoada, cumprindo uma sina macabra devido a pecados realizados em vida. Estudiosos do ocultismo encontraram registros católicos datados do século XVI onde constam casos chocantes de padres e sacerdotes que teriam sido seduzidos por uma jovem e "desviados do caminho de Cristo" - eles se referiam à mulher como uma concubina infernal, serva do Diabo, uma "égua maldita". Há teorias de que a Atormentadora tenha se originado envolvendo um padre e sua amante, que teria sido amaldiçoada pelo sacerdote.

Imunidade Sobrenatural: o monstro não pode ser ferido por armas mundanas. Sua maior fraqueza é a fé verdadeira e símbolos sagrados, assim como armas santificadas.

Frenesi: na forma de cavalo, a Atormentadora é irrefreável, percorrendo estradas e vilas até que o nascer do sol. Ela ignora qualquer tipo de obstáculo, causando destruição por onde passa com seu poderoso galope. Qualquer um que cruzar seu caminho é atacado, atropelado e pisoteado até a morte.

Ferraduras Infernais: as patas da Atormentadora estão sempre ardendo em brasa. Não se trata de fogo na realidade, mas sim do ódio concentrado e ardente da criatura, capaz de causar terríveis queimaduras com o mero contato da ferradura com criaturas vivas. Esse efeito não se aplica a superfícies ou objetos.

Luz Fantasmagórica: emitida pelo seu crânio (ou ausência dele), essa fonte de luz pálida e fria é capaz de causar angústia e depressão aos que a fitam, como se estivessem enxergando a própria morte se aproximar. Pessoas de vontade frágil sofrem de visões aterradoras e pesadelos durante dias caso sobrevivam à um ataque da Atormentadora.

3 comentários:

  1. Bem bacana esta série sore folclore brasileiro. Qual será o próximo? A Dama do Rio?

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    1. Estou preparando o Boitatá pro começo do ano...e pretendo fazer uma abordagem diferente sobre lobisomens também.

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